quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Notas




Algo puxa sempre meu corpo
um centro, um ponto
é o universo concêntrico
carrega em si tudo que é possível
e tudo que é impossível
pois percorre tudo sem saber o que é o tempo.

Esse ponto me puxa pois
puxa tudo que existe
e o que não existe
sem o cuidado de saber
se esses dois mundos não se anulam

Alguns homens confundem esse ponto
com a cama
com a mulher
com o sono
com o sonho
etc
Tanto faz
pois ele é tudo e não é tudo
é nada e não é nada
é um ponto e não é
por isso não existe.
tanto faz pensá-lo ou vê-lo
ele se perde
depois de morto

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sinaleiras



Recordo pouco da vida marinha

que tive há bons anos...

Mesclava o mar ao choro

a solidão e grandeza vertiginosa do mar.

O mar foi sempre o canal para o mundo

mas eu vivia numa ilha

numa prisão de areia,

que eu insistia em amar.


Pois tudo era úmido

as cores me vinham através de um filtro verde

e os barcos se anunciavam como baleias;

Os sinos balançavam entre as águas

e o farol vigiava ao invés de localizar.


Minhas galochas nunca rasgaram

tal foi que o tempo parava

e recordar era literalmente

dar novamente a corda ao mar.



{Imagem ao topo: "O Lago" de Juan Jose Balzi}

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ato Fálico

Querem-me morto!
Li num muro nu
Querem-me morto!

Agora sou refugiado
Me recuso a sair do meu casco
Hipnotizo os outros com minha espiral
Pois fiz algo de errado
Nasci
E li num muro pelado
que meu corpo
sem vida
paga todo um barco
e todo vasto dinheiro
não cobre todo grande gasto
que causo
com tal Ato desconhecido

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Sol Descontente

Mire estas construções
Estes Palácios, estas Torres.
Mire este leve tocar da voz
como passos de um sapato
num chão de madeira polida.

Este todo espetáculo
O cerne vernáculo, intacto
Inexistente
Vaga fantasmagoricamente
junto ao eco da voz destes sapatos.

E os fazedores disto! ah!
Os atores! são espíritos
envoltos por nada,
senão ar. Fino ar.
São folhas secas despencando solitárias.

Este todo tácito fruir
e triste e horrendo
O verme pródigo deste eco retumbante
Vaga, crestado ou congelado
junto à sola de um velho sapato.

Mire estas construções
Estes Palácios, estas Torres.
Mire este leve tocar da voz
como passos de um sapato
num chão de madeira polida.

Nobody Loves The King

Nobody loves the King
Such as he loves
Himself

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sonhar é Melhor do Que Viver









Numa casa circular: longas linhas vão!
..........................à cima
de baixo.
e estava eu, ele, o outro, e a outra, todos cegos
à tarde entregues
numa casa circular, numa oca; numa cúpula
andando e rindo de olhos cerradíssimos
parecia estarmos lá de novo
vivendo terna lembrança, uma lembrança quente - Mas isso foi outra coisa.
dessa vez eu estava/não estava - discussão complexa -
atravessando a rua ou andando de ônibus
sempre com eles
e estava/não estava vendo o céu rajante em violeta
ou as terras cores que via nas pessoas,
vivia numa inércia deliciosamente confortável .
Eu dizia: "Mas que casa linda!"
Todos riam! eu também.
Pode ser que fosse uma tarde boa como essas
cheias de mulheres que não voltam
e cores e luzes que não voltam
mas voltam em outras tardes ou chuvas.




domingo, 15 de agosto de 2010

Meu Deus É

meu deus é um sistema de eliminação
de sistemas que causam problemas.
meu deus salta aos meus olhos
quando esses sistemas aparecem em
medo
desejo
sofrimento
....dor

eu deposito meu fardo sobre meu deus

dizem que meu deus me abandonou
não
meu deus está aqui quando eu preciso.
enquanto não preciso ele espera
ou nem existe
meu deus é meu escravo
meu burro de carga