domingo, 8 de janeiro de 2012

1

se há-lgo
hád-ser
vá-cuo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

dor solene

a
chamando
cantando
o sol dou
rando
meu pranto

b
e vái mor
rer no mar
pra renascer
num corpo que não cabe
no corpo

c
(na vala dos esquecidos)

ouve o canto de quem chama
uma dor so
lene

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Em sonho

em sonho voava
sinal da glória do ego
hora de lavar o banheiro.

em sonho uma cobra
sinal da frieza
hora do cuidado.

em sonho poema
sinal da fraqueza
hora da mudança

um poema-lembrete
em sonho,
esquecimento da hora
tesouro da palavra
riqueza da pronúncia.

esquecimento da horação
invento do corpo
corpo a todo instante...

...em sonho: momento de glória do poema
em vida
momento da glória do Simples
momento do corte da raiva
instante preciso em sonho

usar energia gerando energia
agir consciente
fuga do ato mecânico
busca pelo trabalho atômico
fuga da morte

poema-lembrete: a hora do barco
lembrança dos nove meses
choro em busca da mãe
mãe em busca do choro
a todo momento: atenção
a todo momento símbolo

seguir com o máximo esforço
em busca da plenitude
ing

seguir desinteressado
despretencioso
iang

organização gera potência
organização gera liberdade
organização gera felicidade

buscar organizar é voltar ao passado
que é presente em sonho

há natureza em tudo
tal como é uma palavra de inconcebível tradução
tal como é um erro ser palavra
tal como ser palavra é sempre erro
e o erro está junto ao acerto
mas ainda é erro

guarda este ramo de lírios sem fim

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

poema de um perdido

Ah, aquelas pernas...
se não fosse por elas! mas,
acho que nunca vou ter aquelas pernas entre as minhas mãos.
mesmo que minhas mãos sejam fortes
mesmo que as pernas estejam fracas
mesmo que eu trate de me cuidar
e bole alguma espécie de plano...

ah, aquelas pernas!
cruzadas daquela forma lembram um bosque
lembram uma árvore monumental
que cresce se contorcendo
virando os seios na minha direção.
Ter aquelas pernas
que responsabilidade
que fardo.
aquelas pernas são quase um país,
só imagine
ser uma presidente ou um rei
das tuas pernas,
ter de manusear
controlar
administrar...não! não...

prefiro ser um transeunte
que ao largo de uma avenida
avista uma árvore num bosque
e passeia entre as pernas
como um ninguém,
observando
abraçando
beijando
num segundo entre 500 anos de vida
dum monumento orgânico
no meio da noite
no meio da dor
de não te-las,
como outro já tinha ...

desde o século dezenove
há  mais grave dor
do que a minha?

creio que sim...

domingo, 26 de junho de 2011

a cor da parede
a planta da calçada
a cor do vestido da professora
o cheiro do banheiro
a temperatura da cantina
a densidade do refeitório
a umidade depois da chuva
a língua presa do porteiro
a vesguice do Zeca
o grito rouco da diretora
o cio do gato do vizinho de noite
a areia do brinquedão
a voz cinza da professora
o sorriso da nuvem
o gosto da pedra
a água da privada
o mijo na porta
o cuspe do segundo andar
o choro de arrependimento
a risada maldosa
o soco no dente
o roxo no olho
a banguela do Tomás
o osso pontudo do André
o revezamento frenético de goleiros
a comida da Dona Maria
a Pitchula
o cuspe roxo alienígena
a trupe dos ratos
a poção do camehamehá
a mentira consciente

infância

a briga com o Pedro
a lancheira do Bruno
a turma da tarde
a richa entre-turmas
o pega-pega-camikasi
a censura
a travessura
o gosto da areia
o grão no dente
o lixo nas mãos

infância

as fezes nas mãos
o mijo na porta
o soco no Tomás
um dente quebrado
o soco no Lucas
um roxo na têmpora
a briga de leão com o Pedro
o esquecimento

infância

as Julias
os Pedros
o tomáz
o joão
o vini
o matheus

infância

a Elô
o olho azul da Elô
o bebê da Elô

infância

A Ló
a fuga
o riso

infância

tempo branco
feito de luz

infância

fonte de tudo: infância

quinta-feira, 16 de junho de 2011

intérmino



viver intensamente, a Vida, nada
que uma vela não queime
num piscar noss'alma é um prego, um
botão, dez contos, uma mulher;
passa em marcha lenta
e no Tejo há barcos de todos os tipos:
se há vento, ora! moveremo-nos,
e o tempo há de consumir a dor.

Um corvo traça o Arco da Morte
sob nossa nau, no espelho d'água
nos grita velhas gralhadas;
incita lembranças da Eternidade

Uma névoa agita nosso destino
nosso barco está sempre n'água
mas a tripulação distraída pensa que o casco é a Terra
pensa que a vida no Tejo é vida qualquer
pois é engano
uma tempestade nos ensina!
um sonho nos fere as têmporas!
o Cais nos assusta...
a boa-ventura em mar é-nos a Vida.

viver intensamente, a Vida, me disse
velho pirata caolho
nada que não queime uma vela da Urbe
um marinheiro se perde no concreto
e se julga fora do Mar
pois é engano
o mar esteve sempre dentro de seu peito
e sua ruína está no esquecimento
Do Tejo ao Umbigo.
esqueceu-se
navegante,
que o movimento dos barcos
é proveniente da pré-vida?
os barcos são oriundos da barriga de uma Mãe?
e um Homem é navegante pois desde antes-do-sempre
esteve imerso nas águas
no balanço das ondas
do caminhar de sua mãe.

Onde estão agora os navegantes?
com que sinais secretos eles se comunicam?
viver intensamente, ah! será sempre um desejo?
quê faremos de importante, trupe, se ficarmos
às cegas, cobertos de mofo?
e estes corpos que temos?
Homem Ao Mar!
...entregou-se à gélida Ignorância.

Às amarras que nos dominam
aos nós que criamos:
só dedico meus risos: profanos
até o leito de minha morte
se a Vida é isto
pois é engano.

terça-feira, 7 de junho de 2011



I

luta cor de cobre em penumbra
a luta de dois corpos indecisos
decididos por lutar, em fuga da morte
proibidos de balbuciar qualquer sinal de verbo
...suas bocas somente se movem para ir de encontro
e desencontro;
descompasso

II

cisão

giro: sobre meu problema me mantenho
girando
cuspindo fogo - flamejando
suavemente atraindo a morte
que não é nada se não uma estrada
que se aproxima infinitamente da eternidade

III

eixo
luz
passo