a cor da parede
a planta da calçada
a cor do vestido da professora
o cheiro do banheiro
a temperatura da cantina
a densidade do refeitório
a umidade depois da chuva
a língua presa do porteiro
a vesguice do Zeca
o grito rouco da diretora
o cio do gato do vizinho de noite
a areia do brinquedão
a voz cinza da professora
o sorriso da nuvem
o gosto da pedra
a água da privada
o mijo na porta
o cuspe do segundo andar
o choro de arrependimento
a risada maldosa
o soco no dente
o roxo no olho
a banguela do Tomás
o osso pontudo do André
o revezamento frenético de goleiros
a comida da Dona Maria
a Pitchula
o cuspe roxo alienígena
a trupe dos ratos
a poção do camehamehá
a mentira consciente
infância
a briga com o Pedro
a lancheira do Bruno
a turma da tarde
a richa entre-turmas
o pega-pega-camikasi
a censura
a travessura
o gosto da areia
o grão no dente
o lixo nas mãos
infância
as fezes nas mãos
o mijo na porta
o soco no Tomás
um dente quebrado
o soco no Lucas
um roxo na têmpora
a briga de leão com o Pedro
o esquecimento
infância
as Julias
os Pedros
o tomáz
o joão
o vini
o matheus
infância
a Elô
o olho azul da Elô
o bebê da Elô
infância
A Ló
a fuga
o riso
infância
tempo branco
feito de luz
infância
fonte de tudo: infância
domingo, 26 de junho de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
intérmino
viver intensamente, a Vida, nada
que uma vela não queime
num piscar noss'alma é um prego, um
botão, dez contos, uma mulher;
passa em marcha lenta
e no Tejo há barcos de todos os tipos:
se há vento, ora! moveremo-nos,
e o tempo há de consumir a dor.
Um corvo traça o Arco da Morte
sob nossa nau, no espelho d'água
nos grita velhas gralhadas;
incita lembranças da Eternidade
Uma névoa agita nosso destino
nosso barco está sempre n'água
mas a tripulação distraída pensa que o casco é a Terra
pensa que a vida no Tejo é vida qualquer
pois é engano
uma tempestade nos ensina!
um sonho nos fere as têmporas!
o Cais nos assusta...
a boa-ventura em mar é-nos a Vida.
viver intensamente, a Vida, me disse
velho pirata caolho
nada que não queime uma vela da Urbe
um marinheiro se perde no concreto
e se julga fora do Mar
pois é engano
o mar esteve sempre dentro de seu peito
e sua ruína está no esquecimento
Do Tejo ao Umbigo.
esqueceu-se
navegante,
que o movimento dos barcos
é proveniente da pré-vida?
os barcos são oriundos da barriga de uma Mãe?
e um Homem é navegante pois desde antes-do-sempre
esteve imerso nas águas
no balanço das ondas
do caminhar de sua mãe.
Onde estão agora os navegantes?
com que sinais secretos eles se comunicam?
viver intensamente, ah! será sempre um desejo?
quê faremos de importante, trupe, se ficarmos
às cegas, cobertos de mofo?
e estes corpos que temos?
Homem Ao Mar!
...entregou-se à gélida Ignorância.
Às amarras que nos dominam
aos nós que criamos:
só dedico meus risos: profanos
até o leito de minha morte
se a Vida é isto
pois é engano.
terça-feira, 7 de junho de 2011
I
luta cor de cobre em penumbra
a luta de dois corpos indecisos
decididos por lutar, em fuga da morte
proibidos de balbuciar qualquer sinal de verbo
...suas bocas somente se movem para ir de encontro
e desencontro;
descompasso
II
cisão
giro: sobre meu problema me mantenho
girando
cuspindo fogo - flamejando
suavemente atraindo a morte
que não é nada se não uma estrada
que se aproxima infinitamente da eternidade
III
eixo
luz
passo
terça-feira, 17 de maio de 2011
Poema Cinza
Um lagarto caminha devagar
como se caminhar fosse viver.
Um lagarto verde sobre o chão laranja-cobre
caminha mecanicamente sobre
a Terra.
Não há Razão ou Amor
como há para nós...ele caminha:
vamos indo.
Suas unhas fazem rastros minúsculos
que um outro verá
a procura de comida:
o lagarto será comida.
Onda havia lagarto
há comida
de coruja
ou gavião.
como se caminhar fosse viver.
Um lagarto verde sobre o chão laranja-cobre
caminha mecanicamente sobre
a Terra.
Não há Razão ou Amor
como há para nós...ele caminha:
vamos indo.
Suas unhas fazem rastros minúsculos
que um outro verá
a procura de comida:
o lagarto será comida.
Onda havia lagarto
há comida
de coruja
ou gavião.
terça-feira, 10 de maio de 2011
As Sombras São Flores
caminham como espinhos
mugindo como ferro
rangendo num linólio vermelho
cuspindo e suspirando um rastro
de sangue seco
no canto está um tesouro
nas sombras está a loucura
sob as cortinas grossas
no meio da floresta
cheia de corujas encardidas
mugindo como ferro
rangendo num linólio vermelho
cuspindo e suspirando um rastro
de sangue seco
no canto está um tesouro
nas sombras está a loucura
sob as cortinas grossas
no meio da floresta
cheia de corujas encardidas
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Cheio de Dicas
imã
tumba dourada
gravidade em seus seios
um fio de metal atravessa
seu nariz
um fio une nós vermelhos
na água
lentamente
na água
novamente
sua mão se duplica
se amplia quando atravessa minha costela
e roça as unhas dentro do meu pulmão
preciso escovar os dentes
e comprar desodorante;
toda quinta me barbeio
está combinado
toda quinta coloco roupas limpas e engomadas
segunda feira
posso ser preso
...estranho; pois já estou meio
preso
linha de trem 93
na estação um aceno
um pano de minúsculas flores vermelhas
com nós na ponta
ao vento;
um sorriso pula da beirada
e vira choro
sempre o trem está indo
nunca chegando
um sonho
dois anéis se cruzam
é o homem e o mundo
uma tartaruga grita
uma coruja toca um violão ao luar
as corujinhas suspiram ao som do violão
ao vento;
um nó de corda erudita
uma mó feita de mulheres de madeira
uma silenciosa montanha de estrelas atrasadas
uma pássaro forte grita: manoel! onde está
nosso pão manoel?
tem mão robustas e calejadas
de gravurista
unhas pontas secas
palmas secas mergulhadas no ácido fraco
ondas douradas de ônibus
uma canoa viajou o brasil todo
meio distraída
um pardal finge que é um gavião
Eu te quero.
você mesma.
isso. será que é você? não, você não, você. sempre.
vermelha
lua
crescente
tatear
ana
aqui está meu celular: 94
15 54 10
de quinta, já é;
estou mais apresentável
no mais o sovaco não está lá aquelas coisas
mas sou eu meu cheiro, afinal
cabelo dançante
como um compasso pegando fogo
eu entendi
em sonho posso explicar
um verso por dia
cheque-mate
chá sem açucar
mola feita de melão
um bisturi assoviando
caminha do umbigo à
boca do bucho
ó meu brasil
amém
Horas Vaga(i)s
horas agora vagais
rio do tempo...aonde vamos?
2011 é mofo
um colar que se rompe no tempo circular
tomado de lama, rompido por um cutelo silencioso.
que faremos após ler estes livros?
e o quando após nossas brigas?
o que é esta tarde não está coerente;
importa onde aparece
não o que é
uma pintura não é um ventinho gozado
não é um orgasmo dentro de uma sala verde
vida é trabalho
nossas unhas crescentes no céu
estão rangendo no entre-dedos
usemo-las a cavar nosso chão
e achar nossa glória feita de mofo
um fio que é um pio
uma coruja macabra canta a existência
de uma sala negra
tudo é tudo
o belo e o bizarro
o moral e o mortal
a morte e o teatro
a morte se conforma
no canto de uma coruja
vamos dar um beliscão na bunda dos cérebros.
(imagem ao topo: pintura de Luise Weiss, retirada do seu blog Relatos Poéticos)
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