domingo, 26 de junho de 2011

a cor da parede
a planta da calçada
a cor do vestido da professora
o cheiro do banheiro
a temperatura da cantina
a densidade do refeitório
a umidade depois da chuva
a língua presa do porteiro
a vesguice do Zeca
o grito rouco da diretora
o cio do gato do vizinho de noite
a areia do brinquedão
a voz cinza da professora
o sorriso da nuvem
o gosto da pedra
a água da privada
o mijo na porta
o cuspe do segundo andar
o choro de arrependimento
a risada maldosa
o soco no dente
o roxo no olho
a banguela do Tomás
o osso pontudo do André
o revezamento frenético de goleiros
a comida da Dona Maria
a Pitchula
o cuspe roxo alienígena
a trupe dos ratos
a poção do camehamehá
a mentira consciente

infância

a briga com o Pedro
a lancheira do Bruno
a turma da tarde
a richa entre-turmas
o pega-pega-camikasi
a censura
a travessura
o gosto da areia
o grão no dente
o lixo nas mãos

infância

as fezes nas mãos
o mijo na porta
o soco no Tomás
um dente quebrado
o soco no Lucas
um roxo na têmpora
a briga de leão com o Pedro
o esquecimento

infância

as Julias
os Pedros
o tomáz
o joão
o vini
o matheus

infância

a Elô
o olho azul da Elô
o bebê da Elô

infância

A Ló
a fuga
o riso

infância

tempo branco
feito de luz

infância

fonte de tudo: infância

quinta-feira, 16 de junho de 2011

intérmino



viver intensamente, a Vida, nada
que uma vela não queime
num piscar noss'alma é um prego, um
botão, dez contos, uma mulher;
passa em marcha lenta
e no Tejo há barcos de todos os tipos:
se há vento, ora! moveremo-nos,
e o tempo há de consumir a dor.

Um corvo traça o Arco da Morte
sob nossa nau, no espelho d'água
nos grita velhas gralhadas;
incita lembranças da Eternidade

Uma névoa agita nosso destino
nosso barco está sempre n'água
mas a tripulação distraída pensa que o casco é a Terra
pensa que a vida no Tejo é vida qualquer
pois é engano
uma tempestade nos ensina!
um sonho nos fere as têmporas!
o Cais nos assusta...
a boa-ventura em mar é-nos a Vida.

viver intensamente, a Vida, me disse
velho pirata caolho
nada que não queime uma vela da Urbe
um marinheiro se perde no concreto
e se julga fora do Mar
pois é engano
o mar esteve sempre dentro de seu peito
e sua ruína está no esquecimento
Do Tejo ao Umbigo.
esqueceu-se
navegante,
que o movimento dos barcos
é proveniente da pré-vida?
os barcos são oriundos da barriga de uma Mãe?
e um Homem é navegante pois desde antes-do-sempre
esteve imerso nas águas
no balanço das ondas
do caminhar de sua mãe.

Onde estão agora os navegantes?
com que sinais secretos eles se comunicam?
viver intensamente, ah! será sempre um desejo?
quê faremos de importante, trupe, se ficarmos
às cegas, cobertos de mofo?
e estes corpos que temos?
Homem Ao Mar!
...entregou-se à gélida Ignorância.

Às amarras que nos dominam
aos nós que criamos:
só dedico meus risos: profanos
até o leito de minha morte
se a Vida é isto
pois é engano.

terça-feira, 7 de junho de 2011



I

luta cor de cobre em penumbra
a luta de dois corpos indecisos
decididos por lutar, em fuga da morte
proibidos de balbuciar qualquer sinal de verbo
...suas bocas somente se movem para ir de encontro
e desencontro;
descompasso

II

cisão

giro: sobre meu problema me mantenho
girando
cuspindo fogo - flamejando
suavemente atraindo a morte
que não é nada se não uma estrada
que se aproxima infinitamente da eternidade

III

eixo
luz
passo

terça-feira, 17 de maio de 2011

Poema Cinza

Um lagarto caminha devagar
como se caminhar fosse viver.
Um lagarto verde sobre o chão laranja-cobre
caminha mecanicamente sobre
a Terra.

Não há Razão ou Amor
como há para nós...ele caminha:
vamos indo.

Suas unhas fazem rastros minúsculos
que um outro verá
a procura de comida:
o lagarto será comida.

Onda havia lagarto
há comida
de coruja
ou gavião.

terça-feira, 10 de maio de 2011

As Sombras São Flores

caminham como espinhos
mugindo como ferro
rangendo num linólio vermelho
cuspindo e suspirando um rastro
de sangue seco

no canto está um tesouro

nas sombras está a loucura
sob as cortinas grossas
no meio da floresta
cheia de corujas encardidas

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cheio de Dicas


imã
tumba dourada
gravidade em seus seios
um fio de metal atravessa
seu nariz
um fio une nós vermelhos

na água
lentamente
na água
novamente
sua mão se duplica

se amplia quando atravessa minha costela
e roça as unhas dentro do meu pulmão

preciso escovar os dentes
e comprar desodorante;

toda quinta me barbeio
está combinado
toda quinta coloco roupas limpas e engomadas

segunda feira
posso ser preso
...estranho; pois já estou meio
preso

linha de trem 93
na estação um aceno
um pano de minúsculas flores vermelhas
com nós na ponta
ao vento;

um sorriso pula da beirada
e vira choro
sempre o trem está indo
nunca chegando

um sonho
dois anéis se cruzam
é o homem e o mundo

uma tartaruga grita
uma coruja toca um violão ao luar
as corujinhas suspiram ao som do violão
ao vento;

um nó de corda erudita
uma mó feita de mulheres de madeira
uma silenciosa montanha de estrelas atrasadas

uma pássaro forte grita: manoel! onde está
nosso pão manoel?
tem mão robustas e calejadas
de gravurista

unhas pontas secas
palmas secas mergulhadas no ácido fraco

ondas douradas de ônibus
uma canoa viajou o brasil todo
meio distraída

um pardal finge que é um gavião

Eu te quero.
você mesma.
isso. será que é você? não, você não, você. sempre.

vermelha
lua
crescente
tatear
ana
aqui está meu celular: 94
15 54 10

de quinta, já é;
estou mais apresentável
no mais o sovaco não está lá aquelas coisas
mas sou eu meu cheiro, afinal

cabelo dançante
como um compasso pegando fogo

eu entendi
em sonho posso explicar
um verso por dia

cheque-mate
chá sem açucar
mola feita de melão
um bisturi assoviando
caminha do umbigo à
boca do bucho

ó meu brasil
amém

Horas Vaga(i)s



horas agora vagais
rio do tempo...aonde vamos?
2011 é mofo
um colar que se rompe no tempo circular
tomado de lama, rompido por um cutelo silencioso.
que faremos após ler estes livros?
e o quando após nossas brigas?

o que é esta tarde não está coerente;
importa onde aparece
não o que é

uma pintura não é um ventinho gozado
não é um orgasmo dentro de uma sala verde
vida é trabalho

nossas unhas crescentes no céu
estão rangendo no entre-dedos
usemo-las a cavar nosso chão
e achar nossa glória feita de mofo

um fio que é um pio
uma coruja macabra canta a existência
de uma sala negra

tudo é tudo
o belo e o bizarro
o moral e o mortal
a morte e o teatro
a morte se conforma
no canto de uma coruja

vamos dar um beliscão na bunda dos cérebros.

(imagem ao topo: pintura de Luise Weiss, retirada do seu blog Relatos Poéticos)